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Milton Tortella: Barbearia Residência, 2022. Curadoria de Lucas Goulart (@mrbuzinas) e coordenação de Lígia Tortella (@ligia.tortella). Organização: Ato Arte Coletivo (@atoartecoletivo) e parceria (@atelie397)

"Barbearia Residência", 2022

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“Arara Solidária”, 2022

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"Barbearia Residência", 2022

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"Barbearia Residência", 2022

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"Ex", 2018

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"Barbearia Residência", 2022

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“No Fio do Bigode”, 2022

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“Brasília”, 2022

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“Brasília”, 2022

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“Brasília”, 2022

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Série “Auxílio”, 2020 - 2021: “Paletó: R$ 124.080,00”, “Combustível: R$ 120.035,52”, “Moradia: R$ 117.646,32”

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“CHOQUE”, 2022

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"Barbearia Residência", 2022

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"Barbearia Residência", 2022

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"Chup Chup", 2022

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"Chup Chup", 2022

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"Chup Chup", 2022

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“Papo de Barbearia”, 2022

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“Papo de Barbearia”, 2022

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“Papo de Barbearia”, 2022

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"Barbearia Residência", 2022

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"Barbearia Residência", 2022

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“Aptidão (Memória Afetiva)”, 2022 e “7 Galo”, 2022

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“7 Galo”, 2022

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Fotos: Augusto From

 


Milton Tortella: Barbearia Residência
por 
Lucas Goulart

Com a intervenção de Milton Tortella, um espaço expositivo é negociado nos limites da barbearia do Sr. Laércio, em funcionamento desde 1944, no bairro do Belém. Além das negociações típicas de um comércio que certamente acontecem nesse lugar desde a sua inauguração, os objetos, mobiliário e arquitetura do espaço deixam diferentes camadas de tempo — e memória — abertos à negociação.

 

A idade da fórmica, da cadeira de engraxar sapatos, as marcas no piso e os objetos espalhados pelos balcões mostram no passar do tempo, as tentativas de conciliar o exercício de um ofício e o ritmo de trabalho atual. Uma primeira impressão de marasmo dada pelo espaço é logo substituída pela percepção de que essas marcas temporais sobrepostas abrem fendas para pensar sobre envelhecimento, sobre luto e sobre as disputas de narrativas e memórias.

 

Do lado de fora, uma dinâmica parecida é observada: desde o início desse projeto, cresce o terreno vazio na esquina da rua Toledo de Barbosa com a Avenida Álvaro Ramos. A demolição sucessiva de casas, comércios e pequenos galpões da tradicional tipologia das vilas operárias da zona leste, abre espaço para torres similares às dos condomínios que já avizinham a barbearia.

 

Os trabalhos de Milton — que acrescentam ainda outra camada temporal e de uso ao lugar — tentam dar conta dessas inúmeras negociações e disputas. A barbearia é matéria-prima sensível e material de boa parte dos trabalhos apresentados. “Brasília”, formado por emblemas de carros, como os que o artista lembra de afanar por diversão na adolescência, diz tanto de uma memória pessoal quanto do período em que o espaço da barbearia servia como loja de automóveis. Assim como fala dos projetos desenvolvimentistas que nortearam a construção da Capital Federal e abriram espaço para a indústria de automóveis no país.

O processo de negociação levado a público por Milton são os seus próprios. Como conciliar memórias afetivas e importantes momentos de sua formação com sua prática artística e valores éticos atuais? O universo masculino da barbearia, do futebol, dos carros e das revistas de pornografia, é questionado considerando os debates sociais atuais, mas convive com o afeto e a nostalgia.

 

Acontecimentos sociais e imagens de circulação de massa – recuperados em “Chup Chup” – são produtos na equação da memória pessoal. A negociação é entre o público e o privado. E as contradições, conciliações e afetos envolvidos nessa espinhosa indissociabilidade.

Lucas Goulart é pesquisador, curador e educador. Bacharel em História da Arte pela Universidade Federal de São Paulo, Unifesp, onde desenvolveu pesquisa sobre a construção da identidade nacional através da arquitetura modernista e do tropicalismo, Integrou o grupo de pesquisa “Arte, política, decolonialidade - para um estudo decolonial das artes no Brasil” (2018 - 2020) e ministrou aulas no minicurso “Subjetividades Radicais”, organizado pelo grupo. Atualmente integra o grupo de Pesquisa e Curadoria do Ateliê397.

Barbearia Residência
por Lígia Tortella

 

Barbearia Residência é uma intervenção artística proposta pelo artista visual Milton Tortella.

É onde se apresenta o que veio antes e o que virá depois dos seus mais de 35 anos de carreira. Milton entra nessa exposição com a proteção das folhas de São Jorge, presentes no canto direito do salão da Barbearia, local que escolheu para gentilmente compartilhar sua produção atual, uma vez que resgata os símbolos que fizeram parte da sua construção enquanto indivíduo que passou a infância e adolescência rodeado pelos personagens e contextos que uma barbearia dos anos 40 propiciou.

 

Tortella volta à barbearia de seu pai, Laércio, espaço fundado em 1944 e que, desde então, amalgamou diversas histórias. Histórias que fizeram parte e colaboraram para a criação do imaginário de toda uma geração. Convém exaltar, nesse contexto, a figura do barbeiro, que ainda exerce seu ofício aos 91 anos e que durante todo o exercício da sua profissão, com uma palavra ou balançar de cabeça permitiu que conversas fluíssem.

 

Cada um dos 13 trabalhos expostos por toda a área do salão soluciona formalmente conversas políticas que se apresentam e, de certa forma, se repetem há tempos. Todo esse imaginário é, agora, apresentado com o objetivo de abrir para o público uma proposição que expõe arte e vivência num mesmo processo intrínseco.

 

A partir de 2017, o trabalho de Milton chega a um entendimento do contexto no qual está inserido, deixando de ser um trabalho poético que se resolve na tela e passando a tensionar questões políticas e sociais a partir do uso de objetos cotidianos. Sua atuação como professor e com a pedagogia constitui a base teórica para suas pesquisas, que se mostram atentas e dispostas a contribuir para a discussão artística e política, se é que se pode entendê-las como conceitos distintos.

 

Ao abrir a possibilidade de conversas a partir do trabalho “Reflexo”, confronta o status quo geracional patriarcal. Ir a uma barbearia e ouvir palavras anti racistas e anti fascistas é subverter a ordem e abrir novos portais que ecoam por todos os cantos do espaço, lembrando e afirmando que “Papo de barbearia” não tem mais vez e que essa fala disfarçada de descontração tem que ser cortada pela raiz ou melhor, pela língua.

 

Os trabalhos mencionados acima dão uma pista do tom que a intervenção artística traz, onde a narrativa do artista mira em ir de encontro com quem está na posição de compreender esses símbolos, propondo outras configurações para eles e nova construção de imaginário.

 

Entremeado nestes diálogos há também grande valor emocional nas narrativas apresentadas. Seria impossível dissociar o espaço da família e das figuras parentais. A barbearia desde sempre reuniu, além de clientes, a família do artista. Mafalda, mãe do artista (in memoriam), que já havia sido retratada em obras pelo filho a partir de suas longas e sempre bem feitas unhas vermelhas, é homenageada a partir do registro de seu processo de declínio cognitivo durante a velhice. “Aptidão (Memória Afetiva)” mostra que propor o futuro é reconhecer e validar nossos ancestrais.

 

Barbearia Residência é o ponto de encontro dos interesses e vivências de Tortella. É onde se desatam nós, ao mesmo tempo que solidifica e oferece proposições como pontos de continuidade, como nos trabalhos “Biblioteca”, “Discoteca” e “Arara de roupas”, trabalhos pensados para o público e que fecham a intervenção declarando a busca pelo exercício da coletividade a partir dali.

 

Lígia Tortella (São Paulo, 1998), é artista visual e produtora cultural. Atualmente trabalha como produtora no Ateliê397, além de ser gestora no Espaço Independente de Arte Contemporânea Colabirinto e fundadora do Núcleo Coluna, um núcleo artístico que pensa estratégias anti-capitalistas a partir da proposição de oficinas.

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