A IMAGEM E A ARTE COMO TERRITÓRIOS INTERDISCIPLINARES:
UM ESBOÇO SOBRE A ARTE DE MILTON TORTELLA, 2011 (1)
Mônica Hernandes – Curadora, Produtora Cultural, Profa. de História.
Resumo
Este trabalho investiga como as imagens urbanas e artísticas revelam elementos simbólicos e identitários do homem contemporâneo. Sendo o símbolo uma construção social por excelência, presente em qualquer representação artística, a presente pesquisa concentra-se na análise da iconografia do artista paulistano Milton Tortella para dialogar com a cultura visual e a interdisciplinaridade entre a História da Arte, a História Cultural e a Antropologia Visual.
Palavras-chave: Imagem; cultura visual; Milton Tortella; interdisciplinaridade.
Introdução
A imagem, ao longo do tempo, sempre foi objeto de investigação constante. Em sua acepção mais simples, podemos defini-la como toda visualização construída pelo homem. Nesse cenário, permeiam elementos simbólicos diversos, representativos de uma sociedade e de uma identidade construída — ou em construção — mediante interpretações e reconstruções imagéticas que constituem uma leitura diária da prática social.
A História da Arte sempre se valeu da utilização da imagem como instrumento de contextualização, criando a base da mediação entre o criador e o espectador, tão apropriada à produção contemporânea. Por meio dessa mediação, compreende-se a força da imagem em nosso cotidiano e também sua decodificação individual, que envolve o indivíduo em sua vivência e em suas inter-relações. A mensagem da imagem constitui uma absorção singular e complementar de seu meio.
Segundo Paulo Knauss (2000), a categoria de cultura visual permite, de um lado, expandir a História da Arte ao integrar os objetos artísticos ao mundo das imagens ou ao integrar o mundo das imagens ao mundo das artes. De outro lado, essa categoria apresenta novos desafios à História da Arte, redefinindo o próprio estatuto da arte como construção histórica, com variações que lhe conferem historicidade própria.
A Representação Artística
O símbolo é social por excelência e sempre esteve presente em qualquer representação artística, por meio das linhas, cores, formas, sons, gestos e movimentos. Dessa forma, a iconografia deste trabalho pauta-se nas obras do artista Milton Tortella (1970), paulistano, publicitário, desenhista, gravador, escultor e pintor, identificando elementos e características da realidade social que transcendem a ideia de tempo e lugar e implicam inúmeras possibilidades de análise que vão além da estética, ao transitar por questões que concernem à humanidade.
Sua trajetória, a partir do desenho, tem no grafite sua entrada profissional no campo das artes, mais precisamente nos anos oitenta, no cenário underground paulistano, elegendo a pintura como sua principal forma de expressão, independentemente do suporte. O universo do grafite tem no centro urbano seu espaço privilegiado; seus suportes principais são os muros e viadutos, e a cor e a forma constituem os elementos centrais da composição. Sua interação com o cinza da cidade revela inquietudes sociais que ora se destacam pela força do traço e da cor, ora silenciam pela contemplação.
Movimento que teve forte expressão em Paris, na contracultura de 1968, com caráter político-poético, mas que também remete a tempos primitivos e às formas de expressão de cada época, nas quais a imagem estabelece uma relação direta com o meio.
A Imagem como Aspecto Discursivo na Arte de Milton Tortella
Tendo em vista os aspectos observados na matriz visual do artista, revela-se de grande relevância o entendimento da iconografia na análise da obra de arte.
A iconografia, em seu significado mais simples, abrange o estudo descritivo da representação visual de imagens e símbolos contidos na obra de arte, sem considerar, inicialmente, os dados históricos nela presentes. Complementarmente, a iconologia compreende a interpretação mais profunda da imagem, em seu papel histórico e social.
Panofsky, em seu artigo “Iconografia e Iconologia na Renascença”, define três níveis analíticos para a imagem. O primeiro é o tema primário ou natural, referente à interpretação dos dados formais e de conteúdo, formado por uma tríade — descrição, análise e interpretação — denominada pré-iconográfica. O segundo é o tema secundário ou convencional, que estabelece a intenção consciente do artista, constituindo a análise iconográfica da obra. O terceiro corresponde à interpretação em seu sentido global.
A diversidade de imagens e os múltiplos significados nas obras de Milton Tortella traduzem a intensidade da cultura visual presente na expressão artística, tão própria da subjetividade. A construção figurativa, repleta de sentimentos ambíguos, configura-se nas mais diversas interpretações das relações humanas. Sua representação pictórica, ao longo dos anos, acentuou influências artísticas variadas; o desenho, em primeiro plano, impregna-se de personagens que transitam livremente na espacialidade.
O artista tem no feminino e em seu universo uma alegoria central, presente nas artes visuais desde a Grécia Antiga até a contemporaneidade. Gestos livres e vigorosos aludem ao momento, ao instantâneo, ao iminente; a cor, por sua vez, carrega uma carga semântica própria de sua gênese. Nesse diálogo, a materialidade dos suportes utilizados é diversa: madeira, tela, papel, caixa de papelão, vinil, metal, entre outros.
A temática urbana permeia o vasto campo de trabalho e pesquisa do artista. Sua narrativa remete a contos, cenários e interpretações singulares em seus múltiplos aspectos, assumindo papel primordial na relação com a realidade concreta presente na diversidade cultural — seja no espaço geográfico, político, econômico, religioso ou social.
O empirismo presente nas obras remete ao papel social intrínseco da arte, que ultrapassa a mera contemplação estética, tornando-se elo coesivo da representação do real e do caos da sociedade em suas múltiplas facetas.
Em sua apropriação da representação do outro, Lefebvre traduz esse sentido:
“Surpreender cada coisa e todas as coisas pelo seu lado instável, perecível; pôr a descoberto a aparência e toda a estabilidade, todo o equilíbrio, toda a imobilidade; acentuar o devir; utilizar os germes da destruição e de autodestruição que qualquer realidade traz dentro de si…”
(LEFEBVRE, 1976)
Bibliografia
KNAUSS, Paulo. Imaginária urbana: escultura pública na paisagem construída do Brasil. IN: SALGUEIRO, Heliana Angotti (coord.). Paisagem e arte. São Paulo, CBHA, 2000. p. 407-414.
KNAUSS, O Desafio de fazer História com Imagens- Arte e cultura visual-artigo-2006
LEFEBVRE, H. (1976). Hegel Marx Nietzsche ou o reino das sombras. Editora Ulisseia. Lisboa.
PANOFSKY, Erwin.(1991) Iconografia e Iconologia: uma Introdução ao Estudo do Renascimento. Significado nas Artes Visuais. São Paulo: Perspectiva
PÍFANO, Q. Raquel- HISTÓRIA DA ARTE COMO HISTÓRIA DAS IMAGENS: A ICONOLOGIA DE ERWIN PANOFSKY-Fênix-Revista de História e Estudos Sociais-2010-vol VII. Pesquisa nome e data de publicação
1. HERNANDES, Mônica. A IMAGEM E A ARTE COMO TERRITÓRIOS INTERDISCIPLINARES: UM ESBOÇO SOBRE A OBRA DE MILTON TORTELLA; 2011; Iniciação Científica; (Graduando em História) - Centro Universitário Radial; Orientador: Francione Oliveira Carvalho. Acessado em https://www.escavador.com/sobre/3616545/francione-oliveira-carvalho 17 fev. 2026.
Nota do Artista
O artigo publicado por Mônica Hernandes, em 2011, analisa um recorte específico da produção artística de Milton Tortella, concentrando-se em séries desenvolvidas entre o final da década de 1980 e os anos 2000.
A série Césio 137 (1989–1992) constitui um dos primeiros núcleos estruturantes dessa produção. Composta por trabalhos realizados em técnicas como graffiti, pintura sobre tela e sobre aglomerado, a série dialoga com acontecimentos históricos e tensões sociais, articulando memória, trauma e representação urbana. Parte dessa produção foi apresentada de 14 a 28 de julho no Espaço Killochan, em São Paulo, SP, reunindo 16 obras.
Na sequência, desenvolve-se a série Cidade (1993–1996), composta por 36 trabalhos de diversos formatos e técnicas realizados nos anos 1990. A série investiga a paisagem urbana como campo simbólico e discursivo, enfatizando tensões sociais e fluxos metropolitanos. Destaca-se, nesse conjunto, o trabalho Radial, que participou da exposição “II Prêmio Gunther de Pintura”, no MAC – Museu de Arte Contemporânea / Ibirapuera, São Paulo, SP, Brasil.
Posteriormente, consolida-se a série Diário (2000–2013), que contou com o acompanhamento crítico da autora do artigo ao longo de sua realização. Composta por dezenas de trabalhos, caracteriza-se por linguagem caricata, cores vibrantes e execução direta — sem desenho prévio na tela, mantendo-se o primeiro traço íntegro do início ao final de cada pintura.
A Série Diário desenvolve-se como prática contínua e reflexiva, abordando temas do cotidiano popular, como violência, preconceito, meio ambiente, relações afetivas e trabalho, frequentemente atravessados por narrativas difundidas pela mídia de massa e pela experiência vivida pelo artista. Trata-se de uma produção que reafirma o caráter empírico e discursivo da imagem em sua dimensão social.
As séries mencionadas inserem-se no contexto da investigação urbana e simbólica que marca a trajetória do artista naquele período, articulando imagem, memória social e tensão histórica. O recorte analítico realizado pela autora dialoga com esse momento específico da produção, anterior a desdobramentos posteriores que ampliaram o campo interdisciplinar da pesquisa visual do artista.